Os 5 problemas mais comuns que todo velejador deveria conhecer antes de navegar no rio Amazonas

“É sem dúvida o Amazonas o máximo dos rios, sem injúria dos Nilos, Núbias e Zaires da África, dos Eufrates, Ganges e Indus de Ásia, dos Danúbios e Ródanos da Europa, dos Pratas, Orinocos e Missisípis da mesma América […] chamado com razão pelos naturais de mar branco, paraná petinga.”

Assim começa sua descrição geográfico-histórica do Rio Amazonas o padre jesuíta João Daniel (1722-1776), cronista da Companhia de Jesus, autor de uma obra enciclopédica chamada “Tesouro descoberto no máximo Rio Amazonas”, onde narra aspectos sobre o rio, a natureza e os homens da Amazônia.

Poucos sabem, mas foi um português chamado Diogo Nunes, arregimentado no exército espanhol – que eu suspeito que tenha sido uma espécie de Jumper, um viajante do tempo, depois eu te conto porque – quem primeiro desceu o Rio Amazonas em solitário, vindo da Cordilheira dos Andes, em 1538, bem antes dos conquistadores espanhóis Pizzarro, Orellana e Aguirre descerem o Amazonas. Mas essa história eu conto daqui a pouco…

Por enquanto eu quero que você imagine que está de volta ao Século XVIII, nos tempos do jesuíta João Daniel, e recebe a missão de velejar as 500 milhas subindo o rio Amazonas entre Soure, na Ilha de Marajó, a maior ilha do Brasil e a maior ilha fluvio-marinha do mundo, e Alter do Chão, em Santarém… Se você conseguiu imaginar, não duvide, mesmo com toda a tecnologia que temos disponível hoje, ouso dizer que sua experiência não será muito diferente da que os colonizadores europeus tiveram…

 

Os 5 problemas mais comuns, que todo velejador deveria conhecer antes de navegar no rio Amazonas

Pensando em ajudar você nessa missão, eu listei a seguir os 5 problemas mais comuns, ou desafios que você poderá enfrentar ao navegar pelos rios da Amazônia, isso os tornará previsíveis e permitirá que você planeje e se prepare para eles. Continue comigo:

1 – As correntes de Maré

Como todos sabemos, o rio Amazonas é o maior rio do mundo, tanto em extensão, com pouco mais de 4.300 milhas – nasce nas terras altas dos andes, percorre o norte da América do Sul, a floresta amazônica e deságua no Oceano Atlântico – quanto em volume de água, possuindo a maior vazão conhecida e lançando ao mar, até 270.000 m³/s de água no período das chuvas. Para se ter ideia deste fenômeno em números, em sua foz o rio Amazonas é capaz de fornecer em cerca de 28 segundos, um litro de água para cada um dos 7,6 bilhões de habitantes do planeta. Sua descarga ocorre com tanta força no Oceano Atlântico, que suas águas atingem cerca de 150 km da costa.

Apesar do volume de deságue descomunal, na foz desse grande rio temos a forte presença das correntes de maré, cujo fluxo, nesta região,  muda de direção aproximadamente a cada 6h, com diferenças nos tempos de enchentes e vazantes, e com amplitudes de maré superiores a 3 metros.

Ao navegar pela foz a partir de Soure, até é possível se valer das marés em conjunção com o vento, mas considerando o ciclo de 6 horas, certamente você enfrentará correntes à favor e contra durante as 100 primeiras milhas, mais ou menos até a cidade de Breves, a mais populosa da Ilha de Marajó.

A partir de Breves você começará a navegar contra a corrente ao longo dos estreitos de Breves – um complexo sistema de canais responsável pela maior parte das quase 2.000 ilhas do arquipélago de Marajó – até entrar no rio Amazonas propriamente dito, enfrentando correntes de até 4 nós, dependendo da lua e das condições gerais de navegação.

2 – Os bancos de areia

Como já mencionei acima, o volume de água transportado pelo rio Amazonas é descomunal e vem lavando toda a sua calha trazendo junto com a água uma quantidade imensa de sedimentos que podem formar ao longo do percurso, bancos de areia que estão em permanente movimentação.

A consequência disso é que as cartas nauticas da região não são precisas, nem as de papel nem as digitais. Por isso é altamente recomendado que você tenha um prático local que percorra a região com assiduidade para te conduzir pela rota mais adequada, mantendo você e seu barco à salvo, caso contrário você pode estar navegando no meio do Amazonas e de repente encalhar em um banco de areia que não está registrado em nenhuma carta.

3 – Árvores, troncos e ilhas flutuantes

Nos períodos de cheia, as águas do Amazonas invadem a floresta da planície e trazem para o leito do rio muitos troncos de árvores, e até mesmo árvores inteiras, o fato é que você poderá encontrar muita vegetação flutuando no curso do Rio.

Tenha atenção especial ao fundear seu barco com os aguapés (Eichhornia), uma espécie de planta aquatica capaz de formar grandes colônias que se transformam em grandes ilhas flutuantes e podem se enroscar em seu barco durante a noite. Elas vão dar um bom trabalho para você. Por isso observe o fluxo do rio e onde há esse tipo de vegetação.

4 – As tempestades tropicais

Estamos numa região de superlativos e Floresta Amazônica é a maior floresta equatorial do planeta, característica que por si só significa a presença de um clima quente e úmido, com pouca variação sazonal, chegando a mais de 200 mm de chuvas por ano. Isso, aliado ao fato de que o baixo rio Amazonas está localizado numa região de baixa pressão atmosférica, é muito comum ocorrerem as tempestades tropicais, que apresentam chuvas muito fortes, com ventos muito fortes que variam entre 32 e 62 nós, e que duram cerca de 30 a 40 minutos, em que você perde toda a visibilidade. Esta situação de vento, e as condições que já comentei anteriormente de bancos de areia, árvores e ilhas flutuantes, acabam por exigir muita atenção.

5 – A falta de apoio logístico

Outro aspecto que diferencia essa região do resto do mundo, é que não temos estrutura logística com facilidade, após deixar as grandes cidades como Belém, Manaus ou Santarém, por exemplo. Quero dizer que você deve zarpar preparado para uma viagem sem escalas, como se fosse fazer uma travessia, pois não é em qualquer cidade que você encontrará, por exemplo, peças de reposição para o motor ou para o barco de um modo geral, até mesmo combustível pode parecer difícil. Obviamente você encontra itens mais básicos de alimentação, medicamentos, mas nem pensar em bons mecânicos ou coisas mais complexas.

 

Velejando em flotilha

Como você pôde perceber, passados mais de 500 anos da chegada dos primeiros europeus à Amazônia, o grau de desafio e complexidade da navegação nos rios amazônicos continua sendo alto e foi justamente pensando em facilitar a vida dos velejadores que sempre sonharam em navegar o rio Amazonas que pensamos em criar o BRally Amazon.

Velejando em flotilha e com a estrutura desse evento você terá uma comodidade que você não teria navegando em solitário, como segurança privada, mecânico, equipe médica e logística, além de eventos culturais e gastronômicos criados especialmente para esta aventura.

 

E por falar em navegar no rio Amazonas em solitário…

Você deve estar curioso para saber o que aconteceu com o “jumper”, o português Diogo Nunes, o primeiro europeu a descer o rio Amazonas em 1538.

Vale a pena lembrar que a descoberta e a conquista pelos espanhóis do império inca e de seus tesouros de ouro e prata não foram suficientes para diminuir a sua cobiça e a procura pelas riquezas fáceis, ao alcance da espada e das armas de fogo da época. Dito isto, no vice-reino espanhol de Quito espalhou-se a fama de que nas florestas além da cordilheira dos andes, havia um grande lago dourado, o Eldorado, onde o ouro era mais abundante que as areias de suas praias. Além do lago, segundo as lendas, se encontrava a cidade de Manoa, toda construida de ouro: Paredes, telhados e utensílios domésticos. A fama e a cobiça de tanto ouro mobilizou o ânimo de muitos aventureiros em direção à Amazônia, e a esse Eldorado. Talvez o aventureiro português Diogo Nunes tenha sido um deles.

O fato é que, Diogo Nunes havia sido incorporado às tropas espanholas do Pacífico em circunstâncias desconhecidas. Por alguma razão, ele desertou do exército espanhol em Quito e desceu o Amazonas a partir dos Andes, em solitário, numa pequena canoa, por volta de 1538. Imagino que tenha sido uma verdadeira odisseia. Sua jornada terminou não se sabe bem, nem onde nem como, mas Diogo Nunes apareceu em São Vicente e dali retornou a Lisboa, anos depois, na companhia de Tomé de Souza, primeiro governador-geral do Brasil, a quem certamente apresentou seus relatos. O cearense Capistrano de Abreu, um dos primeiros grandes historiadores brasileiros, mostra, no entanto, em nota à História Geral do Brasil, a improbabilidade de uma tal identificação. Diogo Nunes, é mencionado em uma carta que o embaixador Luis Sarmiento de Mendoza escreveu de Lisboa no ano de 1553 como sendo filho de um português, que fora do Peru ao Brasil levando notícias de ouro e prata.

E então, essa história parece ou não com as histórias de ficção do cinema? 😎

 

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